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Séculos de Ansiedade

Sabemos que uma mentira repetida inúmeras vezes transforma-se em uma verdade, eventualmente de ampla aceitação. A declaração de que vivemos o século da ansiedade pode ser uma dessas verdades poucos contestadas. Convido-os a revisitar nossa história.
Interessante imaginar que no Egito antigo, antes de existir o conceito de dinheiro e salário, as pessoas trabalhavam na construção de monumentos, e eram pagas em cerveja, voluntariamente. Nas sociedades clássicas, que usavam escravos para produzir os bens mais essenciais, e quando não havia comida em abundância, cabe perguntar-se o porquê da destinação de esforços e recursos para a produção de álcool. Cientificamente conhecido como etanol, esta molécula é tóxica para nosso organismo. Porém, evolutivamente ganhamos a capacidade de lidar com ela, pois é produto do metabolismo de um fungo contaminante de alimentos, e assim convive conosco até hoje. Tem todos os elementos que caracterizam uma droga, mas um dos problemas relacionados com o reconhecimento e tratamento de sua dependência são de que seu uso tem aceitação social.
A nicotina, outra molécula com a capacidade de gerar forte dependência, é obtida a partir dos diversos usos do tabaco, tem um grande impacto negativo na saúde humana, a despeito de sua aceitação social. Revisando sua história de disseminação após a descoberta da América, vemos que em poucas décadas já era amplamente usada. Mesmo severas políticas restritivas ao uso, adotadas em alguns países (na Rússia o uso chegou a ser punido com a morte), não impediu uma condição que se seguiu, e foi denominada pandemia global do cigarro, ocasionada pela industrialização do mesmo.
Hoje enfrentamos a pandemia global da obesidade, que tem em sua origem várias causas. Contudo, e mais que provavelmente, a ampla disponibilidade de carboidratos de rápida assimilação está entre as principais delas. Novamente a industrialização, que por outros aspectos foi tão importante para o bem estar da humanidade, atua contra a saúde das pessoas, gerando uma gama de produtos relativamente baratos, mas que contribuem para o desenvolvimento de diabetes, morte cardiovascular, doenças ortopédicas e vários tipos de câncer, através do ganho de peso com distribuição central, a danosa gordura abdominal. A sacarose, novamente uma molécula inocente, tem um papel de destaque na história do consumo, verdadeira febre do açúcar.
Difícil de compreender como Marilyn Monroe permitiu que sua morte fosse determinada pelo uso de barbitúricos, conjunto de substâncias que não tem efeitos muitos além de causar sono. Também, e para quem exerce consultório de medicina, entender a dificuldade que existe em convencer pessoas, usualmente mais idosas, a abandonarem o uso de benzodiazepínicos. Podemos insistir no fato de que estão relacionados com o risco de perda cognitiva (demência) e de queda com fratura, mas no final da consulta vem o pedido da receitinha azul de bromazepam, diazepam, alprazolam ou outro relacionado. Interessante, novamente moléculas úteis, baratas e de amplo consumo.
O que há em comum entre todas estas moléculas? Levamos um tempo para entender que todas elas controlam os sintomas desta condição que chamamos de ansiedade, mas não a doença em si. Assim, abrem o campo de oportunidade para desenvolvimento de outras doenças, mentais e físicas. O apego afetivo que as pessoas desenvolvem a estas moléculas é justificado pelo alívio do sofrimento relacionado com os sintomas da ansiedade.
O desenvolvimento de drogas conhecidas como inibidores da recaptação da serotonina abriu uma grande avenida para a melhoria da qualidade de vida das pessoas acometidas por esta condição. Quando insônia, irritabilidade, perda da capacidade de controlar a ingestão de alimentos ao final da tarde, com ganho de peso, começam a prejudicar a qualidade de vida das pessoas, sugiro atividade física, alimentação balanceada, higiene do sono e meditação. Quando não há resolução, e tendo a Medicina o objetivo principal de mitigar o sofrimento humano, recomendo às pessoas que considerem o aconselhamento profissional e o uso de inibidores da recaptação da serotonina.
Diferentemente da especulação de que a Psiquiatria pretende tratar todo sofrimento humano, tenho proposto para pessoas que se (mal) tratam de ansiedade com as moléculas mais antigas, que economizem dinheiro e saúde com uma abordagem mais atual. “Não serei dependente destas moléculas” não é uma declaração de independência, triste e frequentemente, mas sim uma sentença condenatória para entes queridos, que conviverão com alguém irritável, insone e capaz de decisões nem sempre tão apropriadas.

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